Cinco lições que músicos e compositores podem aprender com Neil Peart

É raro um baterista ser o compositor principal de uma banda. E é raro também que um baterista seja o centro das atenções. Mas o Neil Peart, do Rush, conseguiu as duas coisas. O músico, que morreu recentemente, deixou lições valiosas para músicos, como nós. A gente listou 5 coisas para aprender com a carreira de Peart

Cinco lições que músicos e compositores podem aprender com Neil Peart

 

O que compositores e músicos podem aprender com Neil Peart?

No dia 10 de janeiro, foi nos dada a triste notícia de que o baterista e compositor da banda Rush,  Neil Peart, havia falecido três dias antes, no dia 7 de janeiro,  depois de lutar contra o câncer por três anos e meio. O Rush já tinha anunciado em 2015 que pararia de fazer turnês e no começo de  2018 eles anunciaram a dissolução da banda. Rush era um grupo conhecido no mundo todo, e que manteve a mesma formação durante quase toda sua existência. Depois que Peart entrou no grupo, em 1974, o Rush manteve a mesma santíssima trindade canadense na sua formação: Alex Lifeson na guitarra, Geddy Lee no vocal, baixo e teclado, e Peart atrás da sua bateria, que ficava maior a cada ano.

Em cinco décadas de carreira, o Rush conseguiu alcançar o sonho de qualquer compositor e músico: várias turnês mundiais, vários álbuns de platina, fãs que amavam eles como se fizessem parte de um culto, e professavam as palavras de suas músicas, como  “Tom Sawyer,” “Spirit of Radio” e “2112” para qualquer um disposto a ouvir. O Peart, por sua vez, fez parte de todos os rankings de melhores bateristas do mundo, e foi citado como influência por bateras que vão de Dave Grohl a Questlove.

Mas quais são as lições que os músicos de hoje podem aprender com Peart e sua carreira de cinco décadas? Mesmo depois de ter nos deixado, o Professor continua ensinando.

1. Rasgue os papéis tradicionais

Enquanto os ouvintes mais ocasionais reconhecem o Peart por sua performance atrás da bateria, os fãs mais ferrenhos da banda sabem que ele era também a pessoa por trás de algumas das melhores letras do Rush. O primeiro álbum do grupo foi escrito em uma colaboração de Lifeson com Lee. John Rutsey, o baterista na época do primeiro álbum, até escreveu umas letras, mas nunca as entregou para os colegas de banda. Quando Peart entrou para a banda, antes do lançamento do segundo álbum deles, Fly by Night, ele subverteu o papel de baterista de banda de rock, e passou a ser o principal letrista do Rush.

Quantas outras bandas de rock clássico tinham um baterista que era compositor? Não eram muitas! Ringo Starr escreveu exatas duas músicas dos Beatles: “Don’t Pass Me By” e “Octopus’s Garden.” A grande maioria dos bateristas ficam sentados atrás de seus instrumentos, mas o Peart tinha algo a dizer. E disse durante cinco décadas, nas letras do Rush.

Desde então, um número cada vez maior de bateristas — de Phil Collins a Tomas Haake, da Meshuggah, e  Brann Dailor, da  Mastodon — seguiram a trilha de Peart e passaram a segurar a caneta, além das baquetas, e a escrever para as suas bandas. Então, se você tem idéias, não tenha medo de mostrá-las para seus colegas de banda. Não se dê por contente com um papel só. Se você tem vontade de experimentar algo novo, experimente. E quem sabe? Você pode acabar escrevendo uma música como  “Subdivisions”, que definiu uma era.

2. Ler é divertido e fundamental

Você é compositor e está atrás de novas ideias? Vá ler um livro! Além das muitas fotos em que aparece tocando bateria, há várias imagens de Peart nos bastidores com a cara enfiada em um livro. De Kubla Khan, escrito por Samuel Taylor Coleridge, a qualquer livro de Ayn Rand (de cujo ponto de vista ele se afastou nos últimos anos), Peart era uma pessoa erudita e um leitor ávido. E isso ajudava a ter ideias para músicas.

Mesmo quando o livro não levava diretamente à ideia para uma música, Peart ainda lia bastante sobre os assuntos de que ele escrevia, para ter certeza de que estava no caminho certo. Antes de colocar no papel “Manhattan Project,” do álbum Power Windows,  Peart  leu vários livros sobre a Segunda Guerra Mundial e sobre as pesquisas que levaram ao desenvolvimento da bomba atômica, só para ter certeza de que não ia falar bobagem. Se você quiser ter ideias para músicas novas, ou quiser reforçar ideias de composição, vá ler um livro!

3. Ignore as críticas

Por mais que o Rush tivesse uma legião de fãs, a banda não era louvada pela maioria dos cŕiticos nos primeiros anos. Enquanto bandas de rock progressivo inglesas, tipo Pink Floyd e King Crimson, ganhavam elogios e prêmios nos anos 1970, o Rush era um patinho feio: muito progressivo e pretensioso para ser uma banda de rock, mas também com músicas muito pegajosas para ser cult. Na sua resenha do álbum  A Farewell to Kings, de 1977, o crítico do jornal Village Voice, Robert Christgau, que era conhecido como “O Reitor dos Críticos de Rock”, chamou o Rush de “a banda mais insuportável que existe na cena dos adolescentes” Quando o Rush começou a usar sintetizadores, em 1982, no álbum Signals, a revista Rolling Stone chamou essa mudança de um esforço quase todo desperdiçado.”

Mar Peart não prestou atenção nas críticas. Quando os críticos afirmaram que uma música do álbum 2112, que ocupava um lado inteiro do disco, era muito ambiciosa, Peart dobrou sua aposta e escreveu uma música dividida em duas partes: “Cygnus X-1”. Quando sua bateria gigante virou o símbolo dos excessos do rock de arena dos anos 80, ele continuou colocando mais pedaços no instrumento. E, conforme a música do Rush foi evoluindo de hard rock para progressivo e depois para experimentalismo entre gêneros tão distantes quanto o synthpop, o reggae e o funk, a banda perdeu muitos fãs, mas ganhou outros. Peart nunca teve medo de ousar nas suas letras e em como tocava. O trabalho de um crítico é encontrar o que há de errado numa música. E é o trabalho de um músico escrever e tocar a música que ele quiser. Nunca deixe uma crítica ruim te afastar da música que você quer fazer.

4. Você pode ser bem-sucedido e mesmo assim manter sua privacidade

Peart era um tímido notável. Ele aparecia de vez em quando em aulas e workshops de bateria, mas durante a maior parte do tempo, Peart era reservado e ficava longe do olho público, e deixava para os seus colegas de banda as funções de marketing e de relações públicas dos álbuns. Ele preferia ser o homem por trás da caneta e da baqueta. Peart provou que um músico podia ser bem-sucedido sem abrir mão da sua privacidade.

Então, se você não é uma pessoa extrovertida e sedenta por atenção, você ainda pode ser músico. E ainda pode ser um músico ou uma musicista de sucesso. O Peart  acabou escrevendo um guia de como isso pode rolar na música “Limelight”, do disco clássico Moving Pictures, de 1981. Essa música é um hino para qualquer pessoa tímida que fica famosa, com instruções de como lidar com os holofotes:

Cast in this unlikely role
(Escolhido para esse papel improvável)

Well equipped to act
(Bem preparado para atuar)

With insufficient tact
(Mas sem tato o suficiente)

One must put up barriers
(É preciso erguer barreiras)

To keep oneself intact
(Para se manter intacto)

5. Nunca pare de aprender

Essa é a maior lição que o Neil Peart deixou. Durante sua carreira, Peart nunca relaxou na sua música nem na sua composição. Peart evoluiu como letrista, foi de referências a Tolkien e outros autores para conceitos de ficção científica que ele mesmo criou, como “2112” e “Cygnus X-1”, músicas que fizeram parte do auge do Rush. Quando a banda estourou, no começo dos anos 1980, Peart estava escrevendo sobre uma gama grande de assuntos, que iam do lançamento do veículo espacial Columbia,  na música “Countdown,” até sobre dirigir pelo campo, em “Red Barchetta.”

Peart cresceu muito, tanto quanto baterista quanto como compositor. Parecia que ele colocava um novo elemento na sua bateria a cada álbum ou turnê. Nos anos 1990 —quando a maioria das pessoas já o considerava um mestre do ofício musical — Peart ficou amigo do baterista de jazz Freddie Gruber e aprendeu um estilo completamente novo de tocar, mudando da pegada “match” (quando ambas as baquetas são seguradas com as costas da mão para cima) para a chamada “pegada traditional” (a baqueta esquerda é segurada com as costas da mão voltadas para baixo) . Essa mudança trouxe novos caminhos para seu estilo de tocar,  e pouco tempo depois ele já estava demonstrando a nova técnica em turnês, intercalando os dois estilos, dependendo do solo. Ele também ficou apaixonado por percussão africana, cruzou o continente de bicicleta e incorporou o que aprendeu aos álbuns do Rush do fim dos anos 1980. A evolução constante da baqueta sonora de Peart fez dele um músico melhor. Então, o mesmo vale para você: explore novos estilos, estude técnicas diferentes e NUNCA pare de aprender.

 


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