Entrar em playlist é a solução?

Dizem que as playlists são as rádios do dia de hoje. Existem algumas semelhanças, mas é importante ir além.

Assim como tocar em rádio ou em programas de auditório eram o objetivo de artistas que queriam “chegar lá” nas décadas passadas, nos últimos anos, esse posto foi roubado em parte pelas playlists dos serviços de streaming. Assim como programas de rádio e TV, as playlists têm o poder de apresentar seu trabalho para um público que provavelmente não chegaria até você, o que é ótimo. Mas a exposição não se traduz automaticamente em conversão de ouvinte em fã.

Basicamente, ouvinte é quem ouve sua música. Se gosta ou não, é outro assunto.

Fã é quem realmente segue o artista (muito além do sentido de seguir criado pelas redes sociais). Fã é quem escuta suas músicas, vai aos seus shows, acompanha sua trajetória, compra seu merchandising (camisetas, bonés, discos de vinil e o que mais você tiver disponível) e aguarda ansioso pelo seu próximo lançamento. Numa época em que até o tradicional ranking da revista Billboard está sendo questionado, é muito importante – se não essencial – pensar e planejar muito além das playlists. Como sempre digo, ter sua música tocada no rádio é ótimo, mas se for só uma vez, não vai decolar sua carreira.

Em palestras e entrevistas que dou pela CD Baby, costumo usar como exemplo disso a banda Reverendo Frankenstein. Provavelmente você nunca ouviu falar, mas essa banda (da qual faço parte) já entrou em playlists editoriais (Spotify, Deezer a Apple Music) algumas vezes, mas isso não trouxe e nem trará nenhum resultado real para a nossa carreira se focarmos só nisso.

É essencial trabalhar marketing e redes sociais do artista – conversar diretamente com seu público, numa linguagem que ele entende e se identifica -, uma boa assessoria de imprensa (que vai ajudar a levar seu conceito, sua imagem e conteúdos a um público que ainda não te conhece e reforçar sua presença para quem já conhece), além de buscar parcerias com outros artistas (os famosos feats) e marcas/empresas que também podem te ajudar a expandir o alcance da sua música – seja essa ajuda conceitual (“eu recomendo”) ou financeira.

Um bom exemplo de parceria e pensar além das playlists vem do produtor carioca Alexandre Elias. Com apenas 54 ouvintes mensais no Spotify em dezembro 2020, ele conheceu vloggers ActionKid (234k inscritos), Patrick Lopes (190k inscritos) e Walking Alice (6k inscritos) – cada um deles tem, em média, 15 milhões de views – que tinham dificuldade de encontrar ou licenciar trilhas lo-fi para seus vídeos no YouTube. “Eles fazem um trabalho que eu batizei City Walkers. Gravei um álbum com esse nome e compus uma música para cada um deles. Sampleei as vozes deles e coloquei nas músicas. Eles amaram, ficaram super empolgados e usam as músicas como aberturas dos vídeos”, explica. Em menos de um mês, 54 ouvintes mensais viraram 9700 (um crescimento de 17.863%!!!). “Posso pegar os fãs deles para se converterem em meus fãs”.

Alexandre Elias.

Ou seja, mesmo sem entrar em playlists editoriais, ele conseguiu aumentar sua visibilidade como artistas, além de “roubar” os seguidores dos YouTubers para realmente ouvirem seu trabalho como artista, além de mera trilha sonora dos vídeos.

Outro ponto importante é conhecer seu público. Muitas vezes, ele pode não ser exatamente quem você pensa que é ou quem você quer atingir. “Comecei a olhar nas estatísticas do Spotify for Artists a idade do público que ouve essa música, porque eu divulgava para quem eu queria alcançar, mas não ouvia dessa música. Então criei outro perfil no Instagram e uma página no Facebook com linguagem voltada para esse público”, conclui Elias. Além do Spotify for Artists, players como Amazon Music e Apple Music também têm ferramentas semelhantes que ajudam o artista a entender quem é seu público.

ESTIMULAR ALGORÍTMO

Ano passado, Daniel Ek (CEO do Spotify) foi muito criticado ao falar que artistas precisam produzir constantemente. Concordo com ele, em partes. Como artista, quero sempre ter novas composições e lançar novas músicas. Mas, analisando friamente, o que ele disse se resume em uma palavra: FREQUÊNCIA.

Antigamente, os artistas eram pagos por grandes gravadoras para ficarem meses em estúdio compondo, experimentando e, no final, lançar um disco. Isso não existe mais. Por outro lado, vivemos em um período muito parecido com o que existia nos anos 1950, quando artistas lançavam singles (os famosos compactos simples, em vinis de 7 polegadas) que depois eram reunidos em um trabalho completo (daí o nome álbum). Ao invés de lançar um álbum de 10 faixas, por exemplo, por que não fracionar isso em singles e prolongar o seu lançamento?

A banda Institution, do selo paulistano Hearts Bleed Blue, fez isso com um toque a mais. A cada lançamento de faixas do álbum Ruptura do Visível, eles criavam novos EP relançando as faixas que já estavam no ar. Além de sempre ter um material novo para mostrar (e ter conteúdo para redes sociais e imprensa), eles forçaram o algoritmo dos players entenderem que aquele artista está em produção constante (mesmo que as músicas tenham sido todas gravadas na mesma leva) e também “requentam” os singles lançados anteriormente ao incluí-los no novo EP. Sem falar que a cada novo single/EP, existe a possibilidade de fazer um novo pitch para as playlists editoriais.

Estratégia similar foi usada pelo guitarrista Kiko Loureiro (fundador do Angra, atualmente no Megadeth) em seu último trabalho solo, Open Source. Antes do álbum completo, o artista escolheu três singles prévios, tática muito comum no mercado. O grande diferencial foi continuar lançando singles de todas as faixas, mesmo que elas já estivessem disponíveis. Felipe Fernandes, que cuida dessa parte da carreira de Kiko, conta que “com o lançamento dos singles em sequência, a playlist [algorítmica] Release Radar ultrapassou todas as playlists em números. Meu pensamento é baseado em redes sociais que também baseiam sua entrega de conteúdo por algoritmo, por isso insistimos nos lançamentos semanais”.

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Kiko Loureiro fundador do Angra, atualmente no Megadeth

Voltando às rádios, a CD Baby tem parceria com os programas Filhos da Pátria (Kiss FM) que toca rock nacional e o Circuito MPB (Rádio Brasil Atual), focado em música popular brasileira. Toda semana, esses dois programas tocam artistas que distribuem suas músicas pela CD Baby e podem, inclusive, entrar na programação regular das rádios.

As possibilidades para impulsionar sua carreira são infinitas. Veja o que artistas semelhantes estão fazendo, mas lembre-se quem nem tudo pode funcionar para você. Busque também novos caminhos, novas ideias.

No final, o “sucesso” ou “chegar lá” é um conceito abstrato e que varia muito de um artista para outro. Mas um ponto em comum é sempre uma combinação de várias ações trabalhadas em paralelo que fazem com que o artista alcance destaque em rankings/playlists, leve público aos seus shows e realmente conquiste fãs (e não ouvintes).

De novo: entrar em playlists é ótimo, mas é ESSENCIAL pensar muito além delas.

E você? Qual é sua opinião sobre playlist? Deixe o seu comentário!